Entrevista: Falamos Com um Professor Que Integrou IA na Aula de História
Professor brasileiro conta como usa ChatGPT e Claude para ensinar história no ensino médio, os desafios com fake news e o impacto real na aprendizagem dos aluno

Rodrigo Santos, 38 anos, leciona história há 12 anos em uma escola estadual de São Paulo e, desde março de 2025, incorporou ferramentas de inteligência artificial generativa em suas aulas de ensino médio. Santos utiliza ChatGPT e Claude para criar simulações históricas, debater fontes primárias e treinar pensamento crítico em uma turma de 42 alunos do terceiro ano que se prepara para o ENEM. A experiência, ainda não sistematizada em pesquisa formal, já mostra resultados em engajamento e capacidade argumentativa, mas também expõe limitações da infraestrutura pública e o risco de desinformação.
A integração de IA em salas de aula brasileiras ainda é marginal — segundo dados da Pesquisa TIC Educação 2024 do Cetic.br, apenas 11% dos professores de escolas públicas reportaram uso de ferramentas de IA generativa em atividades pedagógicas. O caso de Santos ilustra tanto o potencial pedagógico quanto os obstáculos práticos que enfrentam docentes que tentam inovar em contextos de escassos recursos.
- Rodrigo Santos usa ChatGPT e Claude para criar simulações históricas em turmas de ENEM desde março de 2025.
- Apenas 11% dos professores de escolas públicas no Brasil utilizaram IA generativa em 2024, segundo o Cetic.br.
- A experiência revela ganhos em pensamento crítico, mas exige checagem constante de fatos e infraestrutura adequada.
- Santos dedica 40% do tempo de atividade com IA à verificação de informações geradas pelos modelos.
Contexto: IA generativa chega às escolas públicas brasileiras de forma irregular
A adoção de inteligência artificial generativa no ensino público brasileiro ocorre de maneira dispersa e dependente da iniciativa individual de docentes, sem políticas coordenadas ou formação institucional. Segundo relatório da UNESCO publicado em setembro de 2024, menos de 8% das secretarias estaduais de educação na América Latina possuem diretrizes oficiais sobre uso pedagógico de modelos de linguagem. No Brasil, estados como São Paulo e Rio de Janeiro iniciaram pilotos em 2025, mas a maioria das experiências nasce da curiosidade e do esforço pessoal de professores.
Rodrigo Santos descobriu o ChatGPT em novembro de 2022, durante o pico de popularidade da ferramenta, mas só começou a testá-la em sala em 2025, após concluir um curso online de 20 horas sobre IA na educação oferecido pelo Coursera. «Percebi que os alunos já estavam usando para fazer trabalhos de casa. Preferi trazer para dentro da aula, onde posso ensinar a usar de forma crítica», explica Santos em entrevista por videochamada. A escola onde leciona, localizada na zona leste de São Paulo, atende majoritariamente estudantes de baixa renda e possui um laboratório de informática com 25 computadores compartilhados por 1.200 alunos.
A infraestrutura limitada obriga Santos a realizar atividades com IA em formato híbrido: parte dos alunos usa celulares próprios, parte acessa os computadores da escola em turnos alternados. Essa fragmentação dificulta a padronização das atividades e evidencia a desigualdade de acesso que ainda marca o sistema educativo público brasileiro.
Como funcionam as atividades: simulações históricas e análise de fontes
Santos estrutura as atividades com IA em três formatos principais: simulações de debates históricos, análise crítica de fontes primárias geradas ou comentadas pelos modelos, e redação colaborativa de ensaios argumentativos. A mais popular entre os alunos é a simulação de debates, na qual pequenos grupos recebem personagens históricos fictícios — por exemplo, Getúlio Vargas, Olga Benário e Luís Carlos Prestes — e utilizam prompts no ChatGPT ou Claude para gerar argumentos e réplicas. Santos exige que cada grupo apresente as fontes históricas reais que sustentam ou contradizem as respostas da IA.
Em uma aula sobre o Estado Novo, Santos dividiu a turma em cinco grupos e propôs um júri simulado sobre a legitimidade do golpe de 1937. Cada grupo representava um ator histórico e tinha 15 minutos para interagir com a IA, construindo sua defesa ou acusação. Após a simulação, Santos projetou trechos da Constituição de 1937 e artigos de historiadores como Boris Fausto e Ângela de Castro Gomes, pedindo aos alunos que identificassem onde a IA havia sido precisa e onde havia falhado ou simplificado demais.
«A IA erra bastante em detalhes cronológicos e em nuances ideológicas. Mas justamente por errar, ela vira um objeto de estudo. Os alunos precisam checar cada afirmação, e isso os transforma em detetives históricos.»
A segunda modalidade de atividade envolve análise de fontes. Santos fornece documentos históricos reais — cartas, decretos, fotografias — e pede que os alunos usem a IA para gerar contexto, identificar vieses ou propor interpretações alternativas. Em uma aula sobre a ditadura militar, os alunos receberam trechos do AI-5 e solicitaram ao Claude que explicasse o documento «como se fosse um advogado de direitos humanos» e depois «como se fosse um general do regime». A comparação das respostas gerou discussão sobre linguagem, retórica e construção de narrativas históricas.
O terceiro formato é a redação colaborativa. Santos propõe temas de redação do ENEM relacionados a história — por exemplo, «Os desafios para a preservação da memória histórica no Brasil contemporâneo» — e os alunos trabalham em duplas: um escreve o primeiro parágrafo, o outro pede à IA que continue, depois ambos editam e justificam cada escolha. Ao final, Santos avalia não apenas o texto, mas o processo de edição e a capacidade de identificar generalizações ou erros factuais introduzidos pela IA.
Resultados observados e métricas informais de impacto
Embora Santos não tenha conduzido um estudo controlado, ele registra observações qualitativas e alguns indicadores informais que sugerem melhora no engajamento e na capacidade crítica dos alunos. Desde a introdução das atividades com IA, a taxa de participação ativa em debates de classe aumentou de cerca de 30% para 65%, segundo contagem manual do professor. Além disso, o número de alunos que apresentam fontes externas (artigos, vídeos, livros) em trabalhos escritos cresceu de 8 para 27 em uma turma de 42.
Santos também nota que os alunos demonstram maior familiaridade com o conceito de viés e com a necessidade de triangulação de fontes. Em uma avaliação escrita aplicada em junho de 2025, ele incluiu uma questão aberta pedindo que os estudantes identificassem possíveis erros em um parágrafo gerado por ChatGPT sobre a Revolução de 1930. Dos 42 alunos, 31 identificaram ao menos um erro factual e 18 apontaram simplificações problemáticas — resultado que Santos considera «impensável» antes da introdução das atividades com IA.
No entanto, Santos alerta que a melhora não é uniforme. Cerca de 25% da turma ainda apresenta dificuldade em distinguir informação verificável de opinião, e alguns alunos confiam excessivamente nas respostas da IA, aceitando-as sem questionamento. «Há um grupo que vê a IA como oráculo infalível. Meu trabalho maior é desconstruir essa ideia», diz Santos.
A infraestrutura continua sendo um obstáculo. Em média, Santos calcula que 40% do tempo de cada atividade com IA é gasto em questões técnicas: login, internet lenta, falta de computadores disponíveis, alunos sem celular. Essa sobrecarga operacional reduz o tempo efetivo de aprendizagem e exige que Santos prepare atividades analógicas de backup para alunos sem acesso digital.
Desafios: fake news, alucinações e verificação de fatos
O principal desafio pedagógico identificado por Santos é o risco de desinformação amplificada por respostas imprecisas ou inventadas pelos modelos de linguagem, fenômeno conhecido como «alucinação» de IA. Em pelo menos três ocasiões documentadas por Santos, o ChatGPT gerou citações falsas atribuídas a historiadores reais, e em uma atividade sobre a Guerra do Paraguai, o Claude confundiu datas e tratados. Santos incorporou esses erros ao currículo, transformando-os em estudos de caso sobre checagem de fatos.
Para mitigar o problema, Santos criou um protocolo de verificação obrigatório: sempre que um aluno apresenta informação gerada por IA, deve citar ao menos duas fontes externas que a confirmem. Ele mantém uma lista de recursos confiáveis — CPDOC-FGV, Scielo, acervo digital da Biblioteca Nacional — e ensina os alunos a usar operadores de busca no Google Scholar. Iniciativas como o Claude for Education, anunciado pela Anthropic em 2025, prometem interfaces específicas para contextos escolares com maior controle de fontes, mas ainda não estão disponíveis em português nem acessíveis a escolas públicas brasileiras.
Santos também enfrenta resistência institucional. Alguns colegas veem a IA como ameaça ao ensino tradicional ou como «trapaça institucionalizada». A direção da escola apoia a iniciativa, mas não oferece formação para outros docentes nem recursos adicionais. Santos financia do próprio bolso a assinatura do ChatGPT Plus (US$ 20 mensais) para garantir acesso mais rápido e ao GPT-4, e utiliza a versão gratuita do Claude para atividades alternativas.
Implicações para o sistema educativo e a formação docente
A experiência de Santos evidencia a necessidade urgente de políticas públicas que orientem e apoiem a integração de IA nas escolas, em vez de deixá-la ao acaso da iniciativa individual. Segundo relatório da OCDE publicado em fevereiro de 2025, países que adotaram diretrizes nacionais sobre IA na educação — como Estônia, Cingapura e Finlândia — reportam menor desigualdade de acesso e maior eficácia pedagógica do que aqueles onde a adoção é fragmentada.
No Brasil, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPEd) publicaram em abril de 2025 uma carta aberta pedindo ao Ministério da Educação a criação de um grupo de trabalho para elaborar diretrizes sobre IA generativa no ensino básico. A carta destaca a urgência de formar professores em letramento digital crítico, garantir infraestrutura equitativa e estabelecer padrões éticos de uso.
Santos defende que a formação inicial e continuada de docentes inclua módulos sobre IA, pensamento crítico digital e pedagogia ativa. «Não adianta proibir ou ignorar. A IA já está nas mãos dos alunos. Precisamos ensiná-los a pensar com ela, não só através dela», afirma. Ele participa de uma rede informal de 150 professores brasileiros que trocam experiências sobre IA na educação via grupo de WhatsApp e reuniões mensais online.
Especialistas em tecnologia educacional alertam, contudo, que a IA não substitui o papel do professor. «A mediação docente é o que transforma a IA de um gerador de texto em uma ferramenta de aprendizagem», explica Marina Feferbaum, professora de direito e educação da FGV e pesquisadora de inovação pedagógica, em entrevista ao portal Porvir em março de 2025. Feferbaum destaca que experiências bem-sucedidas como a de Santos dependem de competências docentes robustas: domínio do conteúdo, habilidade de fazer boas perguntas e capacidade de conduzir discussões complexas.
| Aspecto | Antes da IA (2024) | Com IA (2025) |
|---|---|---|
| Participação ativa em debates | ~30% dos alunos | ~65% dos alunos |
| Apresentação de fontes externas | 8 de 42 alunos | 27 de 42 alunos |
| Tempo gasto em checagem de fatos | Ocasional | 40% do tempo de atividade |
| Custo pessoal do professor | R$ 0/mês | ~R$ 100/mês (assinatura + materiais) |
Perspectivas e próximos passos na integração de IA no ensino de história
Santos planeja documentar sistematicamente sua experiência ao longo de 2026 e submetê-la como estudo de caso a congressos de ensino de história, buscando contribuir para a construção de evidências empíricas sobre IA na educação básica brasileira. Ele pretende aplicar questionários padronizados de pensamento crítico no início e no fim do ano letivo, comparando resultados com turmas que não utilizam IA. Além disso, está em conversas com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) para desenhar um projeto piloto mais amplo, que envolveria outros professores da rede estadual.
A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo anunciou em março de 2025 um programa piloto de «Letramento em IA» para 50 escolas, com previsão de expansão em 2026. Santos se candidatou para participar, mas ainda aguarda confirmação. O programa prevê formação de 20 horas para professores, fornecimento de tablets para alunos e acesso institucional a plataformas de IA educacional — embora detalhes sobre quais plataformas e com que nível de curadoria ainda não tenham sido divulgados.
Enquanto isso, Santos continua improvisando. Ele mantém um caderno digital onde registra cada atividade, os prompts utilizados, as reações dos alunos e os erros da IA. Esse material, diz, é sua «pesquisa de campo não oficial» e pode servir de base para futuras publicações ou cursos de formação docente. «A pedagogia da IA ainda está sendo inventada. Cada aula é um experimento», conclui Santos.
A integração de inteligência artificial em salas de aula de escolas públicas brasileiras ainda engatinha, mas experiências como a de Rodrigo Santos apontam caminhos possíveis. O desafio agora é transformar iniciativas isoladas em políticas coordenadas, garantir infraestrutura equitativa e formar docentes para que a IA se torne ferramenta de pensamento crítico, não de automação acrítica. A pergunta que permanece é se o sistema educativo brasileiro conseguirá acompanhar a velocidade da transformação tecnológica ou se continuará dependendo da resiliência e da criatividade de professores como Santos.