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Entrevista Com um Reitor: Como Governamos a IA Numa Universidade Pública Espanhola

Reitor da Universidade de Alcalá fala sobre governança de IA, comitês de ética e dilemas entre inovação e equidade acadêmica em 2026.

StudyVerso Editorial 8 min read
Entrevista Com um Reitor: Como Governamos a IA Numa Universidade Pública Espanhola


A Universidade de Alcalá (UAH), uma das instituições públicas mais antigas da Espanha, criou em janeiro de 2026 um comitê permanente de governança de inteligência artificial para regular o uso de ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini em salas de aula, pesquisa e avaliações. A decisão, anunciada após três meses de debate interno, posiciona a universidade entre as primeiras da Europa a formalizar políticas institucionais sobre IA generativa. O reitor José Vicente Saz, doutor em Física e professor titular há vinte anos, lidera o processo em meio a pressões de docentes, estudantes e órgãos reguladores nacionais.

A iniciativa chega num momento em que 68% das universidades europeias ainda não possuem normativas claras sobre IA, segundo relatório da European University Association publicado em março de 2026. Para estudantes brasileiros que consideram graduação ou pós na Espanha, entender como as instituições públicas europeias estão regulando essas tecnologias se torna essencial para avaliar qualidade acadêmica e preparação para o mercado.

📊 Claves rápidas

  • A Universidade de Alcalá formalizou em janeiro de 2026 um comitê permanente para governar o uso de IA generativa.
  • O comitê inclui oito membros: quatro docentes, dois estudantes, um especialista em ética tecnológica e um representante da biblioteca.
  • Segundo a EUA, 68% das universidades europeias ainda não possuem políticas institucionais sobre IA generativa.
  • A regulação abrange uso em aulas, pesquisa, avaliações, dados pessoais e propriedade intelectual.

Contexto: O Vácuo Regulatório nas Universidades Europeias

Desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, as universidades públicas europeias enfrentam um dilema operacional: permitir ferramentas de IA que já fazem parte do mercado de trabalho ou restringi-las para preservar avaliação tradicional e integridade acadêmica. Diferente dos Estados Unidos, onde universidades como Stanford e MIT publicaram guias desde março de 2023, a Europa avançou mais lentamente. O AI Act da União Europeia, aprovado em dezembro de 2024, estabelece obrigações para provedores de sistemas de IA de alto risco, mas delega às instituições educativas a definição de políticas internas.

Na Espanha, o Ministerio de Universidades emitiu em setembro de 2025 uma recomendação não vinculante sugerindo que cada centro criasse comitês ad hoc. A UAH foi uma das primeiras a transformar a recomendação em estrutura permanente. Segundo dados da Conferencia de Rectores de las Universidades Españolas (CRUE), apenas 22% das universidades públicas espanholas possuíam normativas formais sobre IA até março de 2026.

O debate interno na UAH começou em outubro de 2025, quando três professores da Faculdade de Direito apresentaram ao Senado Acadêmico um documento pedindo proibição total de IA generativa em trabalhos avaliativos. Paralelamente, estudantes de Engenharia Informática circularam uma petição com 1.200 assinaturas solicitando integração curricular de ferramentas como GitHub Copilot e Claude. A tensão levou o reitor Saz a convocar uma comissão exploratória em novembro, que resultou na proposta do comitê permanente aprovado por maioria em janeiro.

A Composição do Comitê e os Princípios de Governança

O comitê de governança da UAH reúne oito membros com mandatos rotativos de dois anos: quatro docentes de áreas distintas (Humanidades, Ciências Exatas, Engenharia e Ciências Sociais), dois representantes estudantis eleitos, um especialista externo em ética tecnológica e o diretor da biblioteca universitária. A estrutura busca equilibrar conhecimento técnico, perspectiva pedagógica e representação discente. As reuniões ocorrem mensalmente e as atas são publicadas no portal da universidade com 15 dias de atraso.

José Vicente Saz explica que a composição diversa foi pensada para evitar dois riscos opostos: tecnofobia paralisante e entusiasmo acrítico. «Recebíamos pressões de ambos os lados. Professores de Filologia viam a IA como ameaça existencial à escrita crítica. Docentes de Computação queriam adoção sem restrições. Precisávamos de um espaço deliberativo que não fosse capturado por nenhum extremo», afirma o reitor em entrevista conduzida por videoconferência em abril de 2026.

«A universidade pública não pode ser nem tecnófoba nem tecnófila. Nosso papel é educar estudantes para um mercado onde IA já é realidade, mas também formar pensadores críticos que não terceirizem o raciocínio para uma máquina.»

— José Vicente Saz, reitor da Universidade de Alcalá

O comitê estabeleceu quatro princípios norteadores: transparência (estudantes devem declarar uso de IA em trabalhos quando exigido), equidade (acesso garantido a ferramentas pagas por meio de licenças institucionais para alunos de baixa renda), privacidade (proibição de upload de dados pessoais de pesquisa a serviços de terceiros sem consentimento) e autonomia docente (cada professor define regras específicas por disciplina, dentro de diretrizes gerais).

Dilemas Práticos: Avaliação, Plágio e Detecção

Uma das questões mais espinhosas enfrentadas pelo comitê é a detecção de uso não autorizado de IA em trabalhos acadêmicos, área onde as ferramentas automatizadas apresentam taxas de falso positivo de até 26%, segundo estudo da Universidade de Stanford publicado em fevereiro de 2026. A UAH decidiu não adotar sistemas de detecção de IA como obrigatórios, privilegiando mudanças metodológicas nas avaliações.

Saz reconhece que a tentação de usar detectores automáticos é grande, mas os riscos são maiores. «Testamos três plataformas comerciais de detecção em fase piloto. Os falsos positivos eram inaceitáveis. Alunos cujo idioma materno não é o espanhol eram flagrados com frequência desproporcional. Decidimos que a resposta não pode ser policial, mas pedagógica», comenta.

A estratégia adotada envolve três eixos: primeiro, incentivar avaliações orais, apresentações e projetos colaborativos difíceis de terceirizar para IA; segundo, formar docentes em prompt engineering para que entendam as capacidades e limitações reais dos modelos; terceiro, incluir disciplinas sobre IA e ética digital no currículo obrigatório de todas as graduações a partir de setembro de 2026.

O reitor admite resistências. «Professores com trinta anos de carreira, acostumados a ensaios escritos individuais, veem a mudança como sobrecarga. Mas não temos escolha. Se mantemos avaliações que a IA pode resolver em 90 segundos, estamos medindo a capacidade do aluno de ocultar o uso da ferramenta, não seu aprendizado real.»

Dados Pessoais, Pesquisa e Propriedade Intelectual

O comitê também regula o uso de IA em pesquisa científica, área onde 41% dos doutorandos europeus já utilizam modelos generativos para revisão bibliográfica, segundo levantamento da European Council of Doctoral Candidates publicado em janeiro de 2026. A UAH permite o uso de IA em pesquisa com três condicionantes: declaração explícita em publicações, proibição de envio de dados não publicados a serviços externos sem revisão do comitê de ética, e vedação ao uso de IA para gerar dados experimentais sintéticos sem validação externa.

A questão da propriedade intelectual gera debates acalorados. Quem é autor de um artigo co-escrito com Claude ou GPT-4? A universidade adotou a posição da maioria das revistas científicas: IA não pode ser coautora, mas seu uso deve constar em nota metodológica. «Recebemos casos de estudantes de doutorado que usaram IA para traduzir dados qualitativos de entrevistas. Decidimos caso a caso. Se a IA apenas traduz, é ferramenta. Se reinterpreta, há problema», explica Saz.

Outro ponto sensível é a privacidade. A universidade proibiu que docentes ou pesquisadores subam a plataformas comerciais de IA dados pessoais de participantes de estudos sem anonimização completa. A regra surge após incidente em outubro de 2025, quando um professor de Psicologia enviou transcrições de entrevistas clínicas ao ChatGPT para análise temática, violando o GDPR europeu. O comitê estabeleceu que infrações dessa natureza podem levar a suspensão.

Equidade e Acesso: A Brecha Digital Dentro da Universidade

Um dos achados do diagnóstico prévio realizado pela UAH foi que 34% dos estudantes de graduação nunca haviam usado ferramentas de IA pagas como ChatGPT Plus ou Claude Pro, contra apenas 8% dos alunos de mestrado, revelando uma brecha de acesso que replica desigualdades socioeconômicas. Estudantes de famílias de renda baixa, muitos deles bolsistas, competiam em desvantagem com colegas que pagavam assinaturas mensais de 20 euros.

Para mitigar a brecha, a universidade negociou em fevereiro de 2026 licenças institucionais com Anthropic (Claude) e OpenAI (ChatGPT Team) que garantem acesso gratuito a todos os alunos matriculados. O custo anual da medida é de 180 mil euros, financiados por reorientação de verba anteriormente destinada a software proprietário descontinuado. Saz defende a decisão com argumento de equidade. «Se IA é vantagem competitiva no mercado, não podemos permitir que apenas alunos de classe média alta tenham acesso. Isso é missão da universidade pública.»

A medida gerou críticas de setores que consideram o gasto injustificável em momento de cortes orçamentários. O reitor contra-argumenta que a alternativa seria pior. «Proibir IA na universidade enquanto o mercado a exige é condenar nossos graduados à irrelevância. Preferimos ensinar uso crítico a fingir que a tecnologia não existe.»

O comitê também criou oficinas mensais de literacia em IA, abertas a toda a comunidade acadêmica, onde estudantes aprendem a usar ferramentas de forma ética e eficaz. A frequência nos três primeiros meses superou expectativas: 420 participantes em janeiro, 680 em fevereiro, 590 em março. Cursos de graduação em áreas técnicas lideram a demanda, mas 30% dos inscritos vêm de Humanidades e Ciências Sociais.

O Que Isso Significa Para Estudantes e Outras Universidades

A experiência da UAH está sendo observada por outras universidades públicas espanholas e europeias que enfrentam os mesmos dilemas sem estrutura formal de resposta. Em março de 2026, a Universidade Complutense de Madrid e a Universidade de Barcelona solicitaram acesso às atas do comitê da UAH para replicar o modelo. A CRUE organizou para maio de 2026 um seminário sobre governança de IA onde Saz apresentará os primeiros resultados.

Para estudantes brasileiros que consideram pós-graduação na Espanha, a existência de políticas claras sobre IA pode ser critério de escolha. Universidades com comitês de governança sinalizam preparo institucional para os desafios do mercado atual. Também indicam ambiente menos arbitrário, onde as regras sobre uso de tecnologia são públicas e debatidas, não deixadas ao critério individual de cada professor.

O reitor reconhece que a UAH não tem todas as respostas. «Estamos aprendendo conforme avançamos. Em seis meses, provavelmente ajustaremos metade das regras atuais. Mas ter um espaço institucional para debater essas questões já nos coloca à frente de universidades que fingem que o problema não existe ou que podem resolvê-lo com software de detecção.»

A longo prazo, Saz acredita que a governança de IA nas universidades públicas será tão importante quanto os comitês de ética em pesquisa com seres humanos, criados nas últimas décadas. «Em 2030, uma universidade sem política de IA será vista como amadora. Estamos construindo os precedentes.»

Arturo P.L. — Arturo P.L. cobre inteligência artificial aplicada à educação em StudyVerso. Engenheiro, ex-consultor e co-fundador de uma startup EdTech. Analisa lançamentos de modelos, políticas universitárias e adoção real de IA em salas de aula espanholas e na América Latina.

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